QUEM COMANDA
AS LANCHAS SOFISTICADAS DO BRASIL
UM GRUPO SELETO DE MARINHEIROS
GANHA ATÉ R$ 5.000 POR MÊS PARA PILOTAR E CUIDAR
DAS SOFISTICADAS LANCHAS QUE NAVEGAM EM NOSSAS AGUAS
O comentário “melhor que ter um
barco é ter um amigo que tenha” já passou
de moda. Hoje as empresas construtoras de lanchas luxuosas
no Brasil oferecem cursos para marinheiros desse segmento,
para que eles tenham o padrão exigido para lidar com
equipamentos sofisticados. Vale a pena porque, para o dono,
sua lancha significa somente um desfrute. Todos os preparativos
para o passeio de fim de semana ficam por conta do marinheiro.
A remuneração mensal desses novos profissionais,
capacitados a gerenciar todas as necessidades com relação
ao barco, esta em torno de R$ 3.000 a R$ 5.000, variando de
acordo com o tamanho da embarcação. O investimento
na contratação é justificável.
Como regra geral, quem admire uma lancha sofisticada tem pouco
tempo para o lazer. A maior parte é o empresário
bem sucedido, na faixa dos 45 anos, com a família,
alto poder, aquisitivo, nível acadêmico superior
e, geralmente, pouco tempo ou nenhum tempo para cuidar de
uma embarcação. Por isso, os momentos de lazer
devem ser realmente agradáveis, sem as preocupações
típicas com o combustível, água, alimentação
ou segurança durante uma travessia. O proprietário
quer desfrutar e quem deve gerenciar tudo isso é o
marinheiro.
O centro de treinamento para marinheiros de
alta performance (CTMAP) elo náutico – Spirit
Ferretti, que começou a funcionar em maio de 2002 nas
instalações de Marina Verolme, em angra dos
reis, surgiu da necessidade de formar mão - de - obra
especializada para este publico seleto. As embarcações
da Ferretti dispõem de sistemas sofisticados de automação
e exigem conhecimentos específicos. Segundo o diretor
do CTMAP, Roberto Paes Rocha, a região que se entende
do Rio de Janeiro a Paraty tem cerca de 11.500 marinheiros,
desde os que possuem titulo de capitão amador até
os que conduzem nenhum certificado.
“Há uma grande diferença
entre dirigir um barco comum e uma lanha Ferretti, que custa
entre US$ 2 milhões e US$ 3 milhões. O marinheiro
precisa estar consciente deste valor. No curso passamos os
conhecimentos específicos necessários à
condução de uma lancha de luxo. Por exemplo
nos barcos normais, a manete é mecânica e se
quero que o barco ande para frente, tenho que empurra-la realmente;
na Ferretti, a manete é eletrônica e os motores
são muitos potentes, se o marinheiro fizer o mesmo
que esta acostumado, a lancha avançara sem controle,
quebrando tudo”, explica. No CTMAP, os marinheiros também
têm aulas de ética profissional, que inclui o
comportamento que devem adotar durante o trabalho: como usar
linguagens respeitosas, vestir-se adequadamente, ter cuidado
com os equipamentos e o mobiliário e trabalhar com
presteza e discrição.
Na Intermarine, a preparação dos
marinheiros é feita no momento da entrega técnica
do barco ao proprietário, que é sempre realizada
no Guarujá, em São Paulo, independentemente
de onde o barco ficara ancorado. Segundo Marco Antonio do
Carmo, representante da Intermarine para o Rio, Minas Gerais
e Espírito Santo, desta forma o proprietário
ou a pessoa que ele envia é convidada a estar uns dois
ou três dias no Guarujá, aprendendo com um marinheiro
da empresa de utilização de todos os equipamentos
básicos da lancha.
Depois, o marinheiro do proprietário e
o da Intermarine fazem juntos a entrega no local designado.
No trajeto, que pode durar de três a quatro dias, dependendo
do destino, o aprendizado sobre a parte elétrica, hidráulica,
funcionamento dos motores e tudo vai sendo aprofundado. Alem
disso os manuais de funcionamento são muitos detalhados
e a empresa disponibiliza o Intermarine Asistence para tirar
duvidas e resolver qualquer problema por telefone ou, se necessário,
enviar um técnico.
Eventualmente, a Intermarine organiza cursos
sobre navegação eletrônica em parceria
com a Ray Marine, Para ensinar o uso dos equipamentos GPS,
Ploter, Radar, piloto automático e o novo motor eletrônico
da Volvo, usado em algumas lanchas. Segundo Marco Antonio,
em geral o Marinheiro indicado pelo proprietário para
conduzir um barco como este já tem uma certa experiência
e, pelo menos, o titulo de Mestre Amador Entretanto, ele nota
muitas diferenças de qualificação entre
os Marinheiros.
“Alguns tem essa profissão porque
não conseguiram outra, mas muitos têm curso de
mecânica, salvamento, primeiros socorros, enfim, investiram
na própria formação”.
Os dados da Intermarine acusam que o índice
de problemas com equipamentos decorrestes de uso inadequado
caiu em 60% desde que a empresa passou a fazer uma entrega
técnica mais detalhada.
“Melhoramos esse serviço porque
identificamos que era fundamental para reduzir danos por má
utilização. E deu certo”, Conta.
"Tenha especial atenção com
a presença de água nos porões e com a
eficiência dos sistemas de governo da embarcação"
|
Roberto Barros, durante
uma aula no centro de treinamento, em Angra dos Reis
– RJ, que forma mão – de –
obra especializada para as lanchas luxuosas. |
O DONO DO BARCO É COMO UM CONVIDADO
O comandante Gilmar Pires de Castro é
considerado um dos Marinheiros mais experientes e com melhor
formação do Brasil. Tem titulo de Capitão
Amador pela Capitania dos Portos, começou a trabalhar
com 15 anos como ajudante no Iate Clube do Rio de Janeiro,
depois foi Mestre Amador em um barco de pesca oceânica
e, finalmente, de volta a Angra dos Reis e já com o
titulo de Capitão Amador, assumiu o controle de uma
Benetti de 100 pés. Após seis anos, o proprietário
indicou para o posto que ocupa a três anos, dirigindo
uma Ferretti 65pés, avaliada em US$ 2 milhões.
Gilmar foi um dos primeiros convidados a fazer parte da CTMAP
e atua um pouco como ajudante do curso.
"Esteja familiarizado com os equipamentos que a embarcação
possui, inclusive os eletrônicos, obtendo desses os dados
disponíveis para utilizá-los na sua totalidade"
|
Marinheiro Gilmar no
na foto no comando de uma Spirit Ferretti 65 pés:
Atualmente esta no comando de uma Spirit Ferretti 980.
O Capitão Amador cuida de tudo para que o dono
da lancha desfrute do passeio sem qualquer preocupação.
|
“Na realidade veio lapidado”, elogia Roberto Rocha.
O elogio se confirma quando Gilmar conta a sua rotina: “O
proprietário do barco em que trabalho se comporta como
convidado. Ele avisa que vai chegar a uma determinada hora
e quantas pessoas vêm, eu preparo uma boa recepção
com lagosta, champanhe e saímos para o passeio. É
curioso porque ele nunca reclama se tem uma cortina muito
aberta, uma almofada fora do lugar, nada disso. É um
convidado mesmo, agora eu tenho que ter a sensibilidade de
ver se esta tudo a seu agrado ou não.”
Evidentemente, toda essa prontidão requer uma ampla
preparação anterior para que o barco esteja
em condição de zarpar no momento em que o cliente
deseja.
Rogério Augusto Apolinário de 45 anos e 28 de
profissão, é especializado na condução
de barcos luxuosos de passeio. Inicialmente trabalhava no
Iate Clube de Santos, Litoral de Paulista, pilotando lanchas
pequenas, mas foi se desenvolvendo e atualmente conduz uma
FAIRLINE de 65 pés, de propriedade de um empresário
de São Paulo. Experiente e atento em melhorar sempre,
ele foi convidado recentemente pela FAIRLINE para fazer um
curso na Inglaterra, onde esteve durante 15 dias estudando
laminação, parte elétrica, segurança.
Laqueação e um curso de motores que foi realizado
a parte.
“Esse curso foi oferecido aos marinheiros da FAIRLINE
porque alguns barcos chegaram a ter problemas pela falta de
orientação dos profissionais. Os barcos precisavam
de uma mão-de-obra realmente especializada”.Comenta
Rogério.
Rogério já trabalhou com clientes
de vários perfis. Há os proprietários
que sabem tudo de navegação e, com estes, se
o marinheiro falar alguma bobagem, vai ficar em má
situação. E existem os que não tem idéia
de como um barco funciona. Para Rogério, o importante
é saber manter uma postura profissional, fazer a sua
parte bem feita, independentemente dos conhecimentos do dono
de barco.
“Tem gente que acha que se o proprietário
também souber levar a lancha, ele vai ser mais exigente
com o Marinheiro, mas não concordo. Às vezes
quem sabe até nos ajuda e quem não entende nada
exige que estejamos atentos, a mais coisas ainda”. Explica.
Texto: Daniela Lessa
Fotos: Almir Lima
Matéria da Revista Mar & Mar numero 25 paginas
28,29 e 30
www.revistamaremar.com.br
|