Marinheiro Cezar fala da importância da tecla "mob"
Perder
um tripulante no mar deve ser a situação mais aflitiva
para qualquer comandante. Todos nós já deixamos
cair na água uma toalha, copo, ou qualquer objeto e percebemos
a dificuldade que é tentar recuperá-los.
Saber o que fazer nestes momentos é o primeiro passo para
aumentarmos as chances de uma operação de salvamento
perfeita.
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-Meu
nome é César Possenti
-Tenho
58 anos sou Mestre Amador e navego como Marinheiro Particular
há 40 anos.
-Sou
casado com minha companheira de anos (Roseli) e tenho um
casal de filhos.
-Moro
no Estreito em Florianópolis - Santa Catarina e trabalho
no Iate Clube de Santa Catarina – Veleiros da Ilha.
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Bom
para vocês amantes da navegação; Vou contar
uma história que aconteceu comigo em uma época que
não se ouvia falar em Gps e as ferramentas que os GPS modernos
possuem hoje em dia, ferramentas essas de grande utilidade e que
muitos tem a bordo e não dão valor. Valor esse que
se na época existisse essa tecla meus amigos não
passariam tanto sufoco para me achar...
Final
de Março de 1982; recebi um convite de meus amigos Horacio
Carabelli e Cláudio Contento para levar um veleiro para
a Argentina. Aceitei e embarquei em Florianópolis SC. O
veleiro modelo MAIN 34’ de nome “Manustoor”
ia com destino ao Iate Clube de San Ezidro em Buenos Aires na
Argentina, só que com escala em Buceu no Uruguai, para
equiparmos o barco com instrumentos e acessórios, pois
o barco era “zero” e na época no Brasil era
muito caro e difícil o acesso a esses materiais.
Partimos
de Florianópolis SC com o Veleiro praticamente vazio...Sem
equipamentos, sem motorização e com muitas coisas
a serem feitas.
Nos
primeiros 06 dias e 06 noites navegamos até a barra do
Rio Grande com ventos de Nordeste/Leste Fraco a Moderado.
Tudo
ia muito bem até o través da barra do Chui. Já
estava escurecendo, navegávamos de vento em popa com o
Spiniker (balão) e a vela grande em cima, com velocidade
de 12 a 14 nós e ondas com direção ao Sul
de 1,5 metros de altura. Cláudio Contento estava dentro
do barco dormindo e eu escorado ao quarda-mancebo de boreste conversando
com meu amigo Horacio Carabelli que estava no timão...Derrepente!!!
(PHUST)...Arrebentou o quarda-mancebo e eu que estava sem o cinto
de segurança caí na água gelada do sul, mais
ou menos com 10 graus.
O Horacio quando viu eu cair tentou tirar
a bóia circular, mas estava muito bem preso as ferragens,
então arrancou com força e arrebentou os cabos em
volta da bóia lançando na água para mim.
Como o barco estava com as velas e o Balão em cima, se
distanciando a cada minuto... Cada vez mais longe o Horacio largou
a bóia mais ou menos uns 500 metros de onde eu tinha caído.
Então comecei a nadar em direção a bóia
que nunca parecia que ia alcançar... Já desistindo
com frio e sem forças, na ultima tentativa felizmente consegui
alcançar a bóia.
Para
meu desespero aumentar, a bóia estava entrando muita água
e eu afundava com ela, a noite caia rápido e meus amigos
não retornavam...Pois até o Horacio chamar o Cláudio
que estava dormindo para fazer a mudança de pano no barco,
o barco se distanciou umas 4 milhas em 20 minutos. Lá no
final do horizonte vi o barco retornando e para meu apavoro fazia
zig zag a minha procura e não me avistavam...
Que
terror, eu vendo eles e eles não me vendo... Eu já
quase desistindo de viver...Com olhos fixados ao barco...Percebi
que alguém tinha subido ao mastro, era o Cláudio
que com seus olhos de coruja me avistou.
Ai
veio à parte mais difícil... Eu estava cansado,
com frio e tentando não afundar com a bóia, pois
já estava há quase uma hora dentro da água
gelada, o veleiro navegando em contra-vento passou um palmo de
mim, mais ou menos a uns 12 nós. Então retornaram
e vieram em minha direção com vento de popa o Horacio
no Timão e o Cláudio cuidando das velas e com o
cabo na mão para jogar...
Quando
lançou o cabo para mim, meu desespero era tanto que peguei
no cabo do jeito que veio e queria subir de frente...Tomei muita
água salgada até perceber que tinha que virar de
costas e esperar ser puxado.
O
Cláudio me puxou pelo short de “elanke” (de
borracha) me colocou para bordo novamente.
Renasci
mais uma vez no mar (pois não foi a primeira vez que levo
um susto no mar)...Dei muitas voltas ao convés para me
aquecer e tomei uma bebida quente.
De
manhã cedo um navio de passageiros passa pelo nosso lado
a uns metros (mais um susto), os turistas vendo aquele barquinho
pequenino ali cercado de águas por todos os lados, puxam
suas maquinas fotográficas e filmadoras e começaram
a registrar tudo. Mal sabiam o que tinha acontecido hora antes.
Então
chegamos em Buceu no Uruguai onde ficamos 24 horas “re-carregando
as energias” e fazendo a manutenção no barco.
Após abrimos as velas e com rumo a Argentina.(mal sabíamos
que não estava tudo ok).
Foi
quando chegamos ao Iate clube de San Ezidro (nosso destino) que
para nosso azar assim que atracamos começou a Guerra das
Malvinas. Isso mesmo no dia 2 de abril de 1982, quando a Argentina
ocupou militarmente as ilhas Malvinas.
Foram
26 dias desde que saímos de Florianópolis até
a liberação pelo exercito Argentino para retornarmos
ao Brasil (por terra).
Hoje
sou Proprietário de uma lanchonete para Marinheiros Particulares
e Prestadores de Serviços Náuticos no Iate clube
de Santa Catarina – Veleiros da Ilha e o nome da lanchonete
é HANGAR II.
Minha
Conclusão
Se
na época tivéssemos a bordo um equipamento de navegação
tipo esses GPS que quase todos os barcos possuem e muitos comandantes
não usam, não teríamos passado por tanto
sufoco. E mais a tecla “Mob” Também serve para
marcar posição de algo perdido em alguma situação
difícil, tipo motor de popa, ancora, relógio ETC...
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