Como
contratar um marinheiro
Parece muito
facil, mas sem um rigoroso critério de avaliação,
tudo pode ir por agua abaixo.
Por Alvaro otranto ( Revista Náutica numero 87)
Nos tempos d'antanho, quando os proprietários normalmente
comandavam suas próprias fragatas, os tripulantes
eram "contratados" de várias formas. Alguns
embarcavam por opção própria ou por
estímulo das famílias de tradição
marítima. Outros, porém, eram cooptados (embora
não houvesse essa palavra) por métodos, digamos,
"alternativos", do tipo que todos já vimos
em filmes de capa-e-espada. Alguém convidava o incauto
a beber num botequim (também não havia essa
palavra) e ali, o sujeito era sucessivamente embriagado
e capturado.
Quando despertava, o navio já estava
ao largo e não havia mais como se safar: o chicote
comia solto até uma próxima oportunidade de
desembarque. Havia também quem embarcasse como opção
de troca por um longo período de cadeia ou até
mesmo para escapar da forca.
E assim era naqueles tempos
românticos - ou nem tanto.
Convenhamos, os métodos progrediram bastante e o
chicote - e a forca - foram abandonados, pelo menos nesse
metier. Já o pileque antes de algumas regatas e pescarias,
ainda não.
De qualquer maneira, a contratação
de um marinheiro ou capitão exige alguns critérios
de avaliação que muitas vezes os proprietários,
não
mais de caravelas mas de iates, deixam passar despercebidos.
Alguns, a nosso ver, fundamentais.
À
primeira vista, contratar pode parecer um procedimento simples,
mas fique sabendo que alguns proprietários têm
recorrido até mesmo a head-hunters para localizar
e selecionar os bons profissionais da área. Não
é preciso tanto.
Se você pretende contratar
um marinheiro para o seu barco, basta seguir as dicas que
se seguem:
Experiência
Sem dúvida é o primeiro ponto a ser medido.
Ao analisar as experiências anteriores de seu candidato,
leve em conta o tipo de embarcação, o tempo
de embarque e também o antigo patrão. Às
vezes, três meses de embarque em um veleiro no Caribe
significam muito mias do que um ano inteirinho numa escuna
esquecida lá no fundão de um estaleiro.
Confiança
Talvez a mais importante entre todas as qualidades necessárias.
Afinal, você estará entregando seu capital,
fruto do trabalho de anos a fio, nas mãos de alguém
que deve mantê-lo em perfeito estado. Mas não
é somente isso. O profissional contratado deverá
também cuidar com todo o esmero da segurança
de sua família, mesmo quando você não
estiver presente - ou principalmente na sua ausência.
Pense nisso com todo carinho, meu caro.
Horários
A disponibilidade de tempo é fator preponderante.
Quem trabalha nessa área sabe que a rígida
programação de horários só existe
mesmo para encontro de negócios.
Admita: é só quando dá ou quando se
pode escapar da azáfama do escritório. Por
isso, o marinheiro deve estar ciente de seus hábitos
e, às vezes, até mesmo em escuta permamente,
portando um receptor - prática comum hoje em dia.
Deixar o rapaz disponível, tudo bem. Porém,
saiba liberar ou pelo menos avisar quando mudarem os planos
de lazer. É comum ver o marinheiro no clube, de branco
e com o barco arrumadinho, enquanto o dono está em
Nova York ganhando dinheiro ou num spa perdendo peso.
Prata
da casa
Parabéns, o Chiquinho trabalha sob suas ordens desde
que você conseguiu comprar aquele primeiro 22 pés!
Era um belo veleirinho, com motor de popa 5 hp. Hoje, você
se endinheirou, tem uma bela 54 pés com dois motores
de trocentos cavalos e sistema computadorizado de monitoração,
e quer que o pobre Chiquinho dê conta do recado (de
preferência com o mesmo salário). Saia dessa!
Tripulantes precisam ser treinados e, assim como qualquer
profissional, possuem certas limitações que
devem ser respeitadas, caso você pretenda ficar a
bordo para se divertir - e não para se aborrecer.
Multifuncional
X faz-tudo
Não tenha um pato a bordo, pois ele voa mal, nada
mal e anda mal. Sim, ele faz várias coisas, mas nada
direito. Se você quer um mecânico, eletricista,
técnico em eletrônica, pintor e carpinteiro,
desista de ser um iatista e compre um estaleiro.
Seu capitão deve ter os conhecimentos básicos
para tirá-lo de um sufoco inesperado, mas manutenção
é coisa séria, que deve ser tratada por profissionais
capacitados e, de preferência, autorizados por seu
representante, o marinheiro. Ele deve controlar, testar
e confirmar todo o trabalho que essas pessoas fazem a bordo.
Afinal, é ele que deve conduzir a embarcação
- e todos a bordo em segurança, sempre.
Limpeza
A maioria esmagadora dos barcos é branca - e não
por acaso. Se barco sujo agrada a você, então
compre um jipe e mude de hobby. Já ouvi de um empresário
que seu marinheiro não se ligava muito nesse negócio
de ficar limpando, mas era ótimo no trato com seus
filhos (do empresário). Ora, você diria que
seu gerente de marketing é um desastre, mas que,
em compensação, sua sogra o acha muito simpático?
Não apenas o barco, mas também a apresentação
da tripulação deve espelhar o modo em que
as coisas andem a bordo e quanto seu proprietário
é uma pessoa bem sucedida e organizada - e, sobretudo,
limpa.
Formação
Em nosso país, e como em nenhum outro, existem cursos
de formação ou aprimoramento de tripulantes
para iates. Um nível de escolaridade mínimo
seria interessante além da carteira de arrais, mestre
ou capitão, dependendo de onde se pretende navegar.
Cuidado com as carteiras falsas. Elas são um problema
gravíssimo - e real.
Caráter
Honestidade não se pode medir numa simples olhada.
O convívio e o trato pessoal vão moldar as
relações patrão-empregado para que
se mantenha em equilíbrio uma relação
de respeito e confiança. Se você não
pode confiar-lhe uma garrafa de vodca, admita: menos ainda
um barco.
Remuneração
O que você espera a bordo? Um barco limpo, organizado
e funcionando, com um tripulante disposto a atendê-lo?
Ou uma operação-tartaruga, acompanhada de
cara emburrada? Um azedume nublado a bordo pode estragar
um domingo de sol lá fora.
E como
escolher um patrão
(dirigido a Marinheiros com "M" maiúsculo)
Quase todas
as regras para a escolha de um tripulante têm uma
relação com a melhor maneira de achar um bom
patrão:
Experiência
Caso ele seja um iniciante no iatismo, veja se não
anda acompanhado de um amigo sabichão, daqueles que
se metem a entender de tudo. Se for assim, você passará
uma boa parte do tempo arrumando as besteiras que esse tal
"conhecedor" fizer a bordo. Não deixe que
seu patrão perceba que você é mais capaz
que o sabichão. Guarde isso para o momento oportuno.
Confiança
Levante as características de seu candidato a patrão
junto a outros empresários para saber a solidez de
sua condição financeira e de sua verdadeira
posição social.
E não se esqueça de conversar com os antigos
tripulantes dele. Quanto mais ex-tripulantes ele tiver,
pior. Cuidado com aquelas que contratam bem no comecinho
do verão. Geralmente costumam dispensar o pessoal
depois do Carnaval.
Tem mais: trate seus acertos logo de início, antes
de assumir o trabalho, pois, depois que você já
estiver a bordo, dificilmente conseguirá qualquer
tipo de modificação ou vantagem do tipo vale-transporte
ou carro de serviço.
Última
dica
Se você é novo na profissão, aí
vai um conselho: esqueça dos sábados, domingos,
Carnaval, Natal, Ano Novo, aniversário de filho,
esposa, etc. Prepare-se para passar essas grandes datas
trabalhando, servindo caipirinha e tomando chuva em manobra.
Enfim, meu caro, prepare-se para dar duro como um verdadeiro
profissional.
Fonte: http://www.nautica.com.br