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Brasil 1 embarca rumo ao sonho da volta ao mundo

Brasileiros e estrangeiros se preparam para 57 mil quilômetros de aventura em condições climáticas inóspitas dentro de um barco de pouco mais de 20 metros; saiba o que espera os campeões olímpicos Torben Grael e Marcelo Ferreira

Bernardo Calil
Especial para o UOL Esporte
No Rio de Janeiro

Primeiro barco brasileiro a participar da Volvo Ocean Race, a regata de volta ao mundo, o Brasil 1 levanta âncora neste sábado, no Rio de Janeiro, e parte para Cascais, em Portugal, onde finaliza sua preparação até a largada da "Fórmula 1" do iatismo mundial, no próximo dia 5 de novembro, na Espanha.

Serão oito meses de competição e mais de 57 mil quilômetros percorridos, com etapas que duram até 30 dias ininterruptos. Nesse período, a tripulação de 10 pessoas, metade deles brasileiros, terá de conviver em uma embarcação de 70 pés (21,5 metros) de comprimento, nas mais inóspitas condições climáticas e marítimas.

As ondas de 10 metros e as temperaturas que vão do frio polar ao calor tropical, por vezes na mesma etapa, se somam às dificuldades de alimentação e descanso. Para comer, só alimentos desidratados. Para beber, apenas água dessalinizada. Alguns chegam a perder 10 quilos. Os turnos de quatro horas de sono serão interrompidos regularmente por manobras que necessitem de toda a equipe.

Capitaneando a embarcação verde-e-amarela, Torben Grael, o maior atleta olímpico da história do Brasil e da vela mundial - com cinco medalhas, sendo duas de ouro - lidera oito homens e uma mulher, a experiente navegadora Adrienne Cahalan. Ela é a única representante do sexo feminino entre todos os barcos.

"Nossa tripulação é uma mistura de experiência com juventude. Os brasileiros nunca disputaram uma regata desse tipo, mas são velejadores técnicos, que já disputaram Olimpíadas. Os estrangeiros trazem para a equipe a experiência de já ter dado a volta ao mundo. É uma mistura danada, mas que tem tudo para dar certo", brinca Torben, que participou apenas de uma etapa deste tipo de competição anteriormente, em 1997-98.

A tripulação do Brasil 1 é composta pelo companheiro de Torben nas competições da classe Star, Marcelo Ferreira, e pelos também brasileiros André Fonseca, Kiko Pellicano e João Signorini, mais o reserva Eduardo Penido. É o barco que tem o maior número de nativos do país de sua bandeira. Além deles, Stuart Wilson e Andy Meiklejohn, da Nova Zelândia, Roberto Bermudez, da Espanha, e a navegadora Cahalan, da Austrália, completam a equipe. Knut Frostad, da Noruega, se junta ao time para as etapas dos mares do Sul.

A embarcação foi desenhada pela equipe do neozelandês Bruce Farr, responsável pelos vencedores das últimas seis regatas de volta ao mundo. Começou a ser construída em outubro de 2004, em Indaiatuba (SP), com peças de alta tecnologia vindas de diversas partes do globo. A técnica com fibra de carbono é inédita no Brasil. O veleiro mais moderno já feito no país está na água desde o começo de julho e, desde então, vem sofrendo reajustes. "Essa fase final de preparação é importante tanto para sentir o barco, quanto para entrosar a tripulação", explicou Torben, que terá o acompanhamento da família nas chegadas em alguns dos portos.

O Brasil 1 terá seis adversários, de cinco países diferentes: duas embarcações holandesas, uma sueca, uma espanhola, uma australiana e uma americana. Esta última tem o nome de Piratas do Caribe 2 e é patrocinada pela Walt Disney Company, para a divulgação do filme homônimo.

"Nosso barco foi o terceiro a ir para a água. Na nossa frente, são apenas duas equipes e é para tirar essa vantagem que estamos trabalhando tão intensamente", diz Kiko Pellicano, proeiro e regulador de velas, sobre o Movistar, da Espanha, e um dos ABN Amro, da Holanda. O Ericsson, da Suécia, começou a velejar uma semana depois do Brasil 1. Os outros ainda fazem os últimos ajustes.

"Complicado fazer qualquer previsão, porque muitos dos barcos nem estão na água ainda. São modelos iguais. O trabalho das equipes e os ajustes finais contam muito. Só teremos boas referências nas primeiras provas", afirma Torben Grael.

Os veleiros participarão de nove etapas, além das sete In-Port-Races, regatas locais, realizadas nos portos. A pontuação varia de um (para o oitavo colocado) a oito (para o primeiro). Além disso, existe a pontuação nas passagens pelos Scoring Gates, ou portões de pontuação, que serão seis, dentre eles Fernando de Noronha.

Ganha quem fizer mais pontos, como no Mundial de Fórmula 1. As semelhanças não param por aí. Em abril, ajudado pela quilha basculante, uma das inovações para a competição, o veleiro da equipe espanhola, idêntico ao Brasil 1, bateu o recorde de velocidade em um dia, tornando-se o monocasco mais rápido do mundo. Foram 981,92 km em 24 horas, média de 22,09 nós ou 40,91 km/h, com picos de 70 km/h, mais rápido que lanchas.

Comida ruim; bagagem, só a essencial
A três meses do embarque rumo ao desconhecido, João Signorini, o Joca, de 28 anos, um dos mais jovens tripulantes do Brasil 1, juntamente com André Fonseca, vive um misto de ansiedade e apreensão. Será a primeira vez que o iatista participará de uma competição desta natureza.

AS ORIGENS DA PROVA
A regata de volta ao mundo nasceu em 1973, por iniciativa da Marinha Real da Inglaterra, que resolveu bancar a competição como treinamento para seus oficiais. Até então, menos de dez veleiros tinham conseguido contornar o Cabo Horn, ponto mais meridional da América do Sul. Em 1967, uma tentativa de competição tivera final trágico: apenas um de oito barcos completaram a aventura.

Até 1971, embarcações particulares não faziam travessias deste tipo. Dois anos depois, com o apoio de uma grande empresa de produtos alimentícios, nascia a Whitbread, que teve sete edições. Em 2001, a Volvo assumiu a competição. Promoveu a oitava regata e, para este ano, diminuiu o número de tripulantes e aumentou o tamanho do barco, dificultando ainda mais o trajeto.

 

  "Fazer essa regata de volta ao mundo é o sonho de todo velejador. O barco desenvolve velocidades incríveis, por vezes até mais rápido que uma lancha. A emoção é a mesma de uma Olimpíada", relata Signorini, que ficou em 10° na classe Finn em Atenas-2004.

Nas raias gregas, entretanto, não era preciso encarar os mais inóspitos ambientes que o veleiro brasileiro irá encontrar em alto-mar. Não bastasse o que a natureza impõe ao percurso, os dez navegantes terão que estar preparados para o que a competição exige. O peso é um elemento fundamental no funcionamento do barco. Quanto menor, mais velocidade. Isso tem um preço. "Não estamos fazendo um cruzeiro. Estamos competindo e o objetivo é ser mais veloz e chegar primeiro. Só levamos o realmente essencial".

Estritamente necessário, neste caso, passa longe do que seria normal em uma vida em terra. Banho, só de chuva. Sabonete, nem pensar. Cada tripulante leva apenas uma muda de roupa, que consiste em uma camisa e uma calça à escolha de cada um. Contam ainda com a "roupa de tempo", um agasalho impermeável. É o que vestem. Escova de dente tem o cabo cortado. Em boa quantidade, apenas o protetor solar.

A dispensa também não é muito animadora. Os alimentos são liofilizados, desidratados, ou seja, praticamente sem gosto. São receitas normais, com arroz, batata e carne bovina, entre outras, cozidas em água dessalinizada fervente. E racionadas, claro. São provisões para dez pessoas em períodos de quase um mês navegando. Para beber, só água.

As refeições diárias são café da manhã, almoço e janta, com pequenos lanches nos intervalos. Nenhuma delas tem horário fixo, obviamente, assim como os turnos de descanso. "Ainda não está definido isso, mas a principio serão turnos de quatro horas de descanso por quatro de trabalho. Mas isso depende muito das condições de tempo e de vento. Existem horas em que todos precisam estar a postos para manobras", explica Signorini, que tem as funções de timoneiro, regulador de velas e enfermeiro.

Curiosamente, o engenheiro mecânico e de produção fez cursos de socorros com o Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro e tomou aulas de atendimento de emergência com amigos médicos. Ele será um dos dois responsáveis do barco por este setor. "Em casos mais graves, entramos em contato com este médico e pedimos maiores orientações. Se for necessária a saída do tripulante do barco, as dificuldades serão grandes. Somos mais rápidos que os navios, então teríamos que esperar até chegar em um local mais seguro. Estaremos passando por lugares inóspitos, não é como parar um carro no meio da estrada e desembarcar um passageiro", avalia Joca.

A embarcação possui um mini-banheiro com vaso sanitário. Os dejetos são despejados em alto-mar. Na parte interna do barco, estruturas tubulares presas às paredes - pintadas na cor preta - servem de cama. Computadores de bordo ficam à popa, enquanto controles elétricos e eletrônicos ficam à proa. Velas e balões são dispostos no chão em posição estratégica para a retirada rápida.
Publicado em 18 de agosto de 2005

Acompanhe a colocação do Brasil 1 na regata volta ao mundo pelo site
www.nautica.com.br

Confira em tempo real e com imagens via satélite a posição dos barcos na regata volta ao mundo da Volvo Ocean Race