RADIOTELEFONISTA: O marinheiro que nunca está só

By: Anthony Jones – Jornalista/Marinheiro

FOTO1  marinheiro particular

Mestre Amador – Felipe Santos na mesa de navegação do veleiro Delta 36 (Ilhabela/SP)

“CQDX”… “CQ” – “CQ”… “CQDX”!!! This station Alfa Mike 3405 from São Paulo, Brazil, South America colins. Standby, over!

Era dessa forma que eu e muitos amigos realizávamos o chamado de um QSO internacional em SSB (Single Side Band – bandas laterais em USB e LSB). Já para as chamadas nacionais e locais, aconteciam da seguinte forma: Atento… atento… PX2 Golf 5215, Estação Alfa Mike, QRA Anthony – Alfa, November, Tango, Hotel, Oscar, November, Yankee – em QAP e QRV, roger!

Soletrar o nome é importante, e cada letra deve ser repetida pelo menos duas vezes, para que o receptor compreenda a mensagem, principalmente, devido à oscilação do sinal da radiofrequência durante as transmissões de longa distância. A linguagem do radioamador é assim, cheia de códigos e gírias que somente os iniciados entendem.

Retornemos ao “CQDX”. A fonética seria SE KIU DIEX – e se escreve “seek you diex”. Seek you é o mesmo que “procuro você”, mas há quem diga que vem da telegrafia postal, muitos anos antes da invenção do rádio, e significa “atenção”. Quando adotado como chamado geral, o significado inicial do “CQ” era: “Pare de transmitir e escute”. Já o Diex (DX) vem da telefonia e em inglês significa “distance exchange” ou “ligação distante”, codificação que a telefonista tinha para conectar no switchboard. O “DX”, ou somente a letra “D”, foi incorporado ao “CQ” quando os operadores de rádio sentiram a necessidade de um sinal mais distinto aos chamados para indicar perigo ou emergência. Sendo assim, “CQD” significava “Come Quick Danger” – Venha, Depressa, Perigo.

Na prática do rádio moderno o “CQ” mantém o seu significado original – chamado geral a todas as estações. Os navios enviam “CQ” precedendo reportagens sobre o tempo, o tráfego ou notícias. No serviço de radioamador o “CQ” é um convite para o contato.

FOTO2  marinheiro particularImagem: shopantenas

A minha aprendizagem nesse mundo repleto de nomenclaturas e/ou terminologias técnicas – Alfabeto Fonético Internacional e o Código Q – começou quando eu tinha 16 anos de idade, ao ganhar de presente àquele que se tornaria o meu companheiro de todo fim de semana: um rádio Cobra 148 GTL DX (AM-FM-SSB-CW). A estação de radioamador – Faixa do Cidadão (11 metros) – era fixa (base), com o indicativo de chamada PX2G-5215. O indicativo é a licença de autorização expedida (no meu caso) pelo extinto Departamento Nacional de Telecomunicações (Dentel) – hoje ANATEL – para transmitir pelas ondas hertzianas – frequência de 27,5 MHz.

Foram cinco anos (1983 a 1988), literalmente, transmitindo dentro do armário embutido, onde a estação Alfa Mike fazia contatos de Campinas-SP, com toda a região nordeste do Brasil, Europa e parte da Ásia Ocidental. Os QSO’s aconteciam sempre após às 20h e se prolongavam madrugada adentro. Era nesse período que a propagação se abria e o sinal do rádio alcançava distâncias maiores, com a ajuda de uma boa antena, claro! O rádio PX ficava dentro do armário, justamente, para eu não incomodar os demais membros da família enquanto dormiam.

Rádio ligado, abajour aceso, mapa mundi, com tamanho reduzido, aberto e o ferro de solda aquecido. Eu disse ferro de solda? Exatamente! Enquanto modulávamos, nós radioamadores sempre fazíamos algo paralelo, geralmente soldar cabos e conectores como de costume. A minha voz de tom grave, que não parava de sussurrar, e o cheiro de solda de estanho queimado no quarto me denunciavam e, na calada da madrugada, lá aparecia ele, repentinamente, o primeiríssimo, para fazer sua queixa – com razão!!!

tabela marinheiro

Hobby levado a sério

O radioamadorismo no Brasil sempre foi levado a sério pelos seus aficionados, seja PX, seja PY – radioamador que opera nas bandas de 2m/VHF; 6m/UHF; 10m, 11m, 20m, 40m e 80m/HF. Os radioamadores dividem o espectro de frequência em “metros”, que é o comprimento da onda, ou seja, quanto maior o “metro”, maior o alcance.

Há grupos irradiantes em todas as cidades brasileiras e, também, nos quatro cantos do mundo, cada um na sua modalidade. As conversas, na maioria das vezes, são informais. É proibido falar sobre religião, política e futebol. O motivo, todos nós sabemos. Mas essa brincadeira, de fazer novos contatos e amigos, tem seus momentos de seriedade, empenho, concentração e determinação.

Os radioamadores estão sempre de prontidão, principalmente para situações de emergência. Seja em acidentes e catástrofes, seja em situações de calamidade pública, os radioamadores se unem numa corrente de solidariedade e realizam campanhas de arrecadação de donativos – roupas, remédios, utensílios domésticos e alimentos às vítimas. Eles são verdadeiros aliados da Defesa Civil dos municípios em momentos de crise.

Outro aspecto importante do radioamador – sempre haverá algum em QAP num determinado ponto do planeta – é o de interceptar chamadas de emergência, seja lá onde for.

CÓDIGO Q

O código Q contém diversas combinações com três letras. Abaixo, as mais comuns utilizadas em todos os serviços de radiocomunicação.

codigo Q marinheiro

Veleiro a deriva

Foi exatamente isso que aconteceu com a tripulação de um veleiro que estava naufragando em meio a uma tempestade no Oceano Atlântico, cerca de dois mil quilômetros da costa do estado do Rio de Janeiro. No veleiro, batizado como “Dalkiri” de 32 pés e com bandeira da África do Sul, estavam uma inglesa de 59 anos e um sul-africano de 63 anos de idade.

Ancorado em São Francisco do Sul – Santa Catarina, o casal iniciou a viagem de volta à África do Sul no dia 30 de abril de 2009. Segundo informações divulgadas pela Marinha do Brasil, os navegadores foram surpreendidos por uma tempestade que os deixaram a deriva por causa da água do mar que invadiu a embarcação impossibilitada de seguir viagem.

O pedido de socorro, em 1º de maio, foi interceptado por outro veleiro que retransmitiu a mensagem para uma estação de radioamador da África do Sul. A estação daquele país, por sua vez, acionou o Centro de Coordenação de Busca e Salvamento do Rio de Janeiro, que assumiu a coordenação de buscas. Contatos foram feitos com diversas estações de rádio costeiras, navios mercantes que navegavam na mesma área onde estava o veleiro e com radioamadores brasileiros, dentre eles o PY0FF, cuja estação fica localizada em Fernando de Noronha.

Foi o radioamador André Sampaio, morador da ilha que ajudou na localização do veleiro sul-africano com o seu rádio PY. Segundo ele, o casal a deriva foi resgatado nove dias depois de ter zarpado de Santa Catarina (8/05/2009), graças ao trabalho conjunto entre a Marinha do Brasil, o Salvaero Atlântico, a CapeTown Radio, o South African Maritime Net em 20 metros e, claro, a sua estação – “PY0FF”. Após acionada pelo Salvaero Atlântico, a estação do radioamador brasileiro ficou linkada, com a Capetown Radio e com a Fragata Bosisio, responsável pelo resgate do casal a deriva.
Para a sorte de todos nessa operação de buscas e resgate, os tripulantes do veleiro também são radioamadores da África do Sul, o que facilitou a solicitação de socorro, já que a embarcação possuía comunicação por rádio HF (KHz). Porém, o veleiro não era equipado com o EPIRB a bordo o que facilitaria a sua imediata localização.

Reconhecimento

Ao longo de sua trajetória como radioamador, André Sampaio é bastante conhecido das Forças Armadas brasileiras pelos serviços prestados. Ele é responsável pelo salvamento de pessoas em mais de vinte desastres aéreos e marítimos nos últimos 20 anos, orientando tanto a Marinha, quanto a Aeronáutica, a posição de barcos e aviões envolvidos em acidentes, quando os outros meios de comunicação ficavam mudos, por algum tipo de falha de transmissão e/ou recepção. O reconhecimento, de prestar serviço a Nação, rendeu a Sampaio o título Amigo da Marinha, concedido em 1988. Foi condecorado, também, com a medalha do Mérito Tamandaré – da Marinha do Brasil – em 2003, além de outros títulos – dentre eles, duas vezes campeão mundial de Radioamadorismo.

FOTO3 marinheiro particularImagem: grauca4x4

Veleiro fantasma

Impressionante foi o que aconteceu com o veleiro que ficou à deriva por sete longos anos – tempo que foi dado como desaparecido o velejador alemão Manfred Fritz Bajorat, em 2009. Um grupo de pescadores da Filipinas localizou a embarcação – no final do mês de fevereiro de 2016 – próximo a Barobo, a 62 milhas da costa, na província de Surigao del Sur. O veleiro estava bastante danificado e com os mastros quebrados.

FOTO 4  marinheiro particularVeleiro desaparecido encontrado por pescadores filipinos (Foto de divulgação)

Além de encontrar o barco, os pescadores teriam uma surpresa ainda maior. No interior da cabine – com muita água do mar, álbuns com fotos de família, roupas e documentos –, lá estava o capitão Fritz debruçado na mesa de navegação. O corpo do velejador estava mumificado graças à ação do vento seco dos oceanos, a alta temperatura e o ar salgado. Tudo indica que o marinheiro morreu devido a um mal súbito – ataque do coração – e que, momentos antes de falecer, ainda teria tentado enviar uma mensagem de SOS. O PTT (microfone) do rádio e um HT estavam próximos de uma de suas mãos.

FOTO 5  marinheiro particularFoto de divulgação

O capitão Manfred era considerado navegador experiente, realizou diversas viagens pelos mares do mundo junto com a então esposa (o casal teria se separado em 2008) que morrera de câncer em 2010. A bordo do veleiro fantasma, uma carta de amor foi encontrada:

“Por trinta anos estivemos no mesmo caminho. Então, o poder dos demônios foi mais forte do que sua luta pela vida. Você se foi. Que a sua alma encontre a paz. Seu Manfred”.

O destino do capitão alemão estava traçado e nada faria a regata de Fritz mudar de curso, por mais que tenha tentado com o equipamento de rádio a bordo. Manfred zarpou dessa dimensão fazendo o que mais gostava: velejar.

FOTO 6  marinheiro particularCapitão Manfred Fritz Bajorat
Foto de divulgação

100 dias entre céu e mar

Foi com um desses rádios PY’s que o navegador Amyr Klink, passou 100 dias entre céu e mar, atravessando o Oceano Atlântico, do sul da África ao Brasil, em 1984. O trabalho do navegador solitário não se resumia apenas em remar as mais de 3.500 milhas – 6.500 quilômetros – que separam os dois continentes: do porto de Lüderitz, na Namíbia, até a praia da Espera no litoral baiano.

Diariamente, Klink entrava em contato com a família, amigos e com a imprensa brasileira – emissoras de rádio interessadas nessa odisseia, entrevistavam o navegador “ao vivo” de algum ponto do imenso oceano, graças à tecnologia da Radiotelefonia.

O rádio PY é capaz de acessar diversas frequências, inclusive a de telefonia fixa, permitindo o radioamador efetuar ligações do seu próprio equipamento de HF SSB para sua casa, por exemplo. Dessa forma, Klink relatava – como diário de bordo – seus anseios, seus medos e suas aventuras – hilárias e, ao mesmo tempo, apavorantes – muitas vezes na companhia de ilustres visitantes: os temidos tubarões, as curiosas baleias e as simpáticas gaivotas – sempre interessadas em fazer uma “boquinha”.

Outros visitantes era motivo de preocupação ainda maior, assim batizados pelo navegador: as enormes e pomposas “madames” – que não faziam mal nenhum; as “fresquinhas” – que passavam chamando a atenção; as “cuspideiras” – as mais irritantes e sempre mal intencionadas; as “comadres” – que pareciam ser amigas, mas nem sempre eram de confiança; as “perdidas” – que chegavam agitando todos os lados; e, a pior delas, as “madrastas” – que eram imensas e traiçoeiras. Aliás, foram as “madrastas”, formação de ondas de até 9 metros que fizeram o barco virar no início da viagem, mas Amyr Klink não podia se render ao desafio de passar por cada uma dessas meninas as vezes delicadas, rebeldes, e revoltadas.

Ao longo da travessia com o I.A.T, seu barco a remo, Amyr Klink tomou a decisão de reduzir seus contatos diários, com as pessoas próximas a ele, apenas duas vezes por semana, assim teria mais novidades para contar a cada nova transmissão.

Há mais de trinta anos de tal façanha, Klink não disponibilizada da tecnologia existente nos dias de hoje, por isso o radioamador foi fundamental para o sucesso de sua travessia. Através de seus amigos rádio operadores, o navegador tinha informações precisas sobre a meteorologia, por exemplo. Outros radioamadores transmitiam mensagens de encorajamento, e dezenas de milhares apenas “corujavam” (acompanhavam com seus rádios) a saga de Amyr, inclusive eu – através das entrevistas concedidas ao radialista Wanderley Nogueira, repórter da Rádio Jovem Pan de São Paulo.

FOTO7  marinheiro particularFoto: arquivo pessoal de Amyr Klink na cabine do I.A.T. falando ao rádio

Estudioso em navegação e conhecedor profundo das correntes marítimas, por diversas vezes o solitário capitão Klink – com seu casaco vermelho – dispensou o rádio para solicitar ajuda de navios mercantes das mais diferentes nacionalidades que cruzavam seu caminho, principalmente durante as tempestades. Quando recebia o chamado de rádio de um desses gigantes cargueiros marítimos, o navegador brasileiro apenas dizia que estava tudo “okey”, mesmo que ele estivesse em apuros. Klink sabia que se aceitasse qualquer tipo de ajuda, seu projeto – de atravessar o Oceano Atlântico – iria naufragar.

A importância da Radiocomunicação

Diante desse cenário, percebe-se a importância dos equipamentos de radiocomunicação. Os PX’s e PY’s têm infinita funcionalidade, principalmente a de oferecer segurança. Atualmente, o rádio PX é mais utilizado pelos caminhoneiros. Na maioria das vezes, esses motoristas viajam em comboio, principalmente à noite, e se comunicam entre si para garantir a própria segurança e da carga, também. Mas, há outros aficionados pela Faixa do Cidadão com estações fixas (residências) ou móveis (rádio instalado no automóvel), sempre em busca de uma nova amizade, de novo contato, ou simplesmente um bate-papo com os amigos do dial.

Já o rádio PY é constituído por uma gama de frequências, cada uma para um determinado fim. O setor náutico, por exemplo, disponibiliza o Serviço Móvel Marítimo (SMM), criado pela Embratel justamente para a segurança da vida humana no mar, através das radiocomunicações. Para se ter uma ideia, a Marinha do Brasil emitiu – em 2012 –, através do SMM, 5.871 emissões de buscas e salvamentos (SAR) – Homem ao mar, naufrágios, embarcações à deriva ou desaparecida – entre outras ocorrências –, além de 93 pedidos de socorro (SOS) foram atendidos pelas Estações Costeiras da Embratel nos canais destinados a emergência.

Licença de Funcionamento

Para ter acesso a esse tipo de serviço não basta instalar um rádio e uma antena de boa qualidade no barco e sair falando. Há a necessidade de uma licença de funcionamento expedida pela Agência Nacional de Telecomunicações. Após a solicitação, a Anatel disponibilizará um número de MMSI – Maritime Mobile Service Identity, assim como o indicativo de chamada da sua embarcação, sempre com as iniciais PY seguido por outras letras e numerais, ex: PYD1234 – único e intransferível – a identidade de todo navegador junto a qualquer embarcação, marina, iate clube e serviços costeiros.

O número do MMSI será integrado em vários equipamentos e/ou serviços disponíveis na radiocomunicação. O DISTRESS, por exemplo, é um serviço localizado na parte frontal do seu rádio VHF ou HF-SSB de tecla vermelha. Ele não terá funcionalidade alguma caso o MMSI não seja programado.

O mesmo ocorrerá com o Automatic Identification System – AIS –, sistema de identificação automática e localização de embarcações, e que oferece, também, a posição, velocidade e o curso do barco. Trata-se de um ótimo recurso para evitar abalroamento.

O EPIRB – Emergency Position-Indicating Radio Beacons –, responsável pela localização da embarcação, através de um consórcio de satélites, e serviço de salvamento acionado com sinal intermitente –, também necessita do número do MMSI para o seu funcionamento.

Através desse mesmo MMSI é possível utilizar o Serviço Móvel Marítimo para fazer e receber ligações telefônicas de bordo para a terra e vice-versa usando o rádio VHF ou HF-SSB.

Em caso de emergência, se algum embarcado, sem o indicativo de chamada, solicitar por socorro, correrá o risco de não ser atendido, dependendo do radiotelefonista que estiver na escuta. Mas nos canais específicos para chamadas de SOS, o socorro será copiado e as equipes de resgate acionadas.

canais de socorro marinheiro

Segurança no mar

Toda embarcação provida com esse tipo de equipamento – devidamente licenciado –, somado com outras tecnologias de navegação, estará segura se alguma anomalia ocorrer durante a navegação. A obrigatoriedade de alguns recursos explorados na radiocomunicação marítima deveria ser obrigatória para todas as categorias – a partir da habilitação de moto aquática.

Os cursos de Motonauta e Arrais Amador já deveriam formar radiotelefonistas, assim como a legislação marítima deveria impor a obrigatoriedade na indústria náutica para preparar seus barcos menores (até 15 pés – conduzidos pelo manche) e moto aquáticas – com a pré-instalação de consoles próprios para radiocomunicação. Entendo que o rádio é um instrumento primordial e decisivo para a segurança marítima, por mais que a habilitação seja de esporte e recreio.

Toda e qualquer pessoa que tem seu equipamento para navegar, deveria ter consciência de que o mar não é local para brincadeira sem os devidos cuidados básicos, pelo menos! O abuso da velocidade, o consumo de bebida alcóolica, a falta de uso de coletes salva-vidas, e a navegação próxima à arrebentação, são as principais causas de acidentes, muitas vezes graves. Se todos nós sabemos disso, por que algumas pessoas ainda se arriscam?

Acidente e morte no Buraco do Cação

A curiosidade e a alto-confiança provocaram a morte de um dos três ocupantes de uma moto aquática, em Ilhabela – litoral Norte de São Paulo. O acidente aconteceu em abril de 2015, quando cinco amigos que estavam em dois jet ski navegavam no extremo sul da Ilha em direção à praia do Bonete. Pouco antes de chegar à vila de caiçaras, há uma enorme fenda nos paredões da encosta. O local é conhecido como Buraco do Cação. Quem conhece bem aquela região sabe quando e como pode entrar na gruta com segurança. Com o mar revolto, nem pensar.

As ondas, formadas pela movimentação da água, entram com força na fenda, o que seria perigoso para qualquer um que se arriscasse. Para tal exploração é necessário o mar estar calmo, sem arrebentação e muita habilidade do marinheiro.

O Buraco do Cação é estreito e entrar na fenda, somente pela popa, garante os mais experientes. Caso a condição do mar mude, repentinamente, ou pela simples passagem de embarcações maiores que provocam marolas, o risco de acidente é iminente. Nesse caso, o marinheiro tem que sair da gruta de proa e nunca de popa.

431  marinheiro particularAnthony Jones se aproximando do Buraco do Cação, Ilhabela-SP (Foto: arquivo pessoal)

Os três jovens teriam caído do jet ski próximo do Buraco do Cação e a força das águas os teriam empurrados para dentro da fenda, e logo se viram numa máquina de lavar roupas. As águas do mar entravam com violência na gruta, jogando a moto aquática contra as paredes. Dos três amigos, estavam um casal e uma moça – a única que não usava colete salva-vidas. Depois de muita resistência, a mulher de 32 anos afundou. Enquanto isso, os outros dois ocupantes da segunda moto aquática foram em busca de socorro.

Segundo informações, o casal teria aguardado o resgate por cerca de quatro horas. Um bombeiro salva-vidas da praia do Bonete teria resgatado as vítimas. Já o corpo da mulher desaparecida, foi localizado dois dias depois do acidente debaixo dos destroços da moto aquática em avançado estado de decomposição.

Diferente do caso do veleiro com bandeira sul-africana, citado anteriormente, e resgatado graças ao uso do radioamador, a questão que paira no ar é a seguinte: caso a moto aquática fosse equipada com rádio marítimo a prova d’água – até 1 metro de profundidade garante o manual de instrução –, será que as vítimas desse acidente com a moto aquática não teriam sido resgatadas num período menor do que às quatro horas de espera? Caso os tripulantes da moto aquática conseguissem contato de socorro nos canais específicos de SOS – os boneteiros têm radioamadores e seriam os primeiros a chegar ao local do acidente por estarem mais próximos, cerca de 10 minutos –, uma vida poderia ter sido salva.

Por essas e outras ocorrências, defendo que toda e qualquer embarcação, seja ela qual for, deve ser equipada com rádio marítimo VHF ou radioamador HF SSB como ítem obrigatório da indústria náutica e naval. Trata-se de sobrevivência no mar. Um caso para as autoridades marítimas repensarem. Como Radiotelefonista, o marinheiro nunca está só!

Foto Capa
Mestre Amador Felipe Santos
Marinheiro/Velejador – Veleiro DELTA 36
Ilhabela/SP
Foto: arquivo pessoal

FOTO1  marinheiro particular

Agradecimentos

Capitães:
Amyr Klink – Cem dias entre céu e mar
José Luiz Veronesi – professor de Radiotelefonista e membro do Sintagre
Roberto Melani – Veleiro Cest La Vie

Mestre Amador:
Felipe Santos – marinheiro/velejador
Radioamadores:
Gullermo Cremerius
Rogério Carvalhal
Sérgio Secco

Fontes:
Marinha.com – Tripulação de Veleiro é resgatada com a ajuda de radioamador –maio/2009;
G1 – Mulher desaparece após acidente com moto aquática em Ilhabela, SP. – abril/2015
A Metamorfose do CQ
Comunicações Marítima
Radioamadores para iniciantes

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